"Se não te agradar o estylo,e o methodo, que sigo, terás paciência, porque não posso saber o teu génio, mas se lendo encontrares alguns erros, (como pode suceder, que encontres) ficar-tehey em grande obrigação se delles me advertires, para que emendando-os fique o teu gosto mais satisfeito"
Bento Morganti - Nummismologia. Lisboa, 1737. no Prólogo «A Quem Ler»

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Livraria Candelabro – "montra" comemorativa do livro nº 10.000




Quero prestar a minha singela homenagem ao trabalho desenvolvido, ao longo de vários anos, por Luís Moutinho da Livraria Candelabro situada na Rua de Cedofeita, 471 | 4050-181 PORTO | Telef. 222 002 449 | Telem. 933 425 753 | E-mail: geral@livrariacandelabro.com, que celebrou a colocação do livro nº 10.000 na sua “livraria virtual”.

São livreiros como este (e felizmente que ainda temos alguns mais!) que não deixam morrer o culto da bibliofilia, assim como, da divulgação e estudo do livro como objecto de arte, cultura e também de coleccionismo.



Mas vejamos o que o Luís Moutinho escreveu na introdução a esta “montra”:

“Estimados clientes e amigos,

E aí está ela! a tal "montra" comemorativa do livro nº 10.000!  

O facto de termos chegado aos 10.000 livros online  é um motivo de orgulho mas não é um número particularmente impressionante: colegas nossos têm muitíssimos mais livros catalogados. Enfim, é o resultado de um trabalho feito ao longo de 4 anos de existência do nosso site. A livraria, velhinha de 65 anos, tem um espólio de muitos mais milhares de títulos à espera da sua vez no catálogo!

Desta montra destacamos, como não podia deixar de ser, o livro 10.000: trata-se da raríssima 1ª edição da "LUZ DA LIBERAL E NOBRE ARTE DA CAVALLARIA", obra máxima da tipografia portuguesa setecentista, ilustrada com várias dezenas de soberbas gravuras e em magnífico estado de conservação. Mas outros espécimes bibliográficos merecem destaque: a 1ª edição de 1706 de "Nova Floresta" de Manuel Bernardes, obra importantíssima do barroco português de setecentos; a "HISTÓRIA BREVE DE COIMBRA" de Bernardo de Brito Botelho; a colecção completa da "HISTOIRE GENERALE DE PORTUGAL", uma das primeiras histórias de Portugal, escrita um século antes da "oficial" de Alexandre Herculano; um exemplar único da "EQUITAÇÃO PRATICA" do General Alberto Ilharco; um exemplar também único do imponente "MEDINA - SETENTA ANOS DE PINTURA" da série especial de apenas 70 exemplares numerados e assinados pelo artista; a bonita e luxuosa edição da "Mensagem", realizada pela editora portuense Caixotim: o raríssimo e famoso"SPANISH SCENERY" de Vivian ilustrado com 29 grandes litografias. Que esta selecção seja do agrado de todos.

Saudações bibliófilas e boas leituras!”



Vejamos então estas preciosidades (o resto, que é muito bom, deixo à vossa descoberta…pena é que muitos já “voaram”!):



10.000. ANDRADE (MANOEL CARLOS DE) - LUZ// DA LIBERAL// E// NOBRE ARTE// DA// CAVALLARIA // Offerecida// ao// Senhor// D. JOÃO// Principe do Brazil,// por// MANOEL CARLOS DE ANDRADE,// Picador da Picaria Real de Sua Magestade Fidelissima.// PARTE PRIMEIRA [& PARTE SEGUNDA]. LISBOA, // Por ordem de sua Magestade// Na REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA// ANNO MDCCXC [1790]. In-fólio de XXVI-II-454 págs. Enc. 10.000,00 €

1ª edição de um dos mais preciosos e raros livros setecentistas portugueses, de longe o mais importante tratado de arte equestre do seu tempo a nível nacional e, possivelmente, internacional.
Esmeradamente impresso sobre bom papel e apresentando uma nitidez impressionante, incomum na época, contém um retrato de D. João VI em anterrosto, 2 vinhetas (a encimar cada uma das duas partes em que se divide a obra) e 93 gravuras, das quais 23 desdobráveis e de grandes dimensões.

Mas sobre esta magnífica obra, vejamos o que acerca dela escreve Inocêncio da Silva:
"MANUEL CARLOS DE ANDRADE, Picador da Picaria Real de Sua Magestade Fidelissima. Da sua naturalidade, nascimento, obito e mais circumstancias não me foi até agora possivel colher alguma noticia, posto que empregasse a esse intento as diligencias que estavam ao meu alcance. Luz da liberal e nobre arte da cavallaria offerecida ao sr. D. João principe do Brasil. Parte primeira. Lisboa, na Reg. Offic. Typ. 1790. Fol. maior, de XXVI 454 pag., e mais uma no fim, contendo a errata: illustrada com 93 estampas, e um retrato do principe, delineados pelo habil artista portuguez Joaquim Carneiro da Silva, de quem já fiz menção no Diccionario em logar competente. Posto que no frontispicio se lêa a designação de Parte 1.ª, nem por isso a obra deixa de achar se completa, comprehendendo este volume tambem a Parte 2.ª Esta edicão, que póde equiparar se em nitidez e perfeição typographica ás producções do celebre Ibarra, foi mandada executar por ordem da rainha a senhora D. Maria I sendo a tiragem de mil exemplares, dos quaes se entregaram oitocentos ao auctor, ficando duzentos para serem na officina expostos á venda: e ainda na Imprensa Nacional existe ao presente o resto d"esses exemplares, cujo preço antigo que era de 9:600 réis, foi ha poucos annos reduzido a 7:200 réis. Custou a gravura das chapas, vinhetas e letras iniciaes 4:200$000 réis, e a despeza total da impressão foi de 6:588$000 réis. Alguns pretenderam, não sei se com legitimo fundamento, que o verdadeiro auctor d"esta Arte da Cavallaria fôra o marquez de Marialva D. Pedro de Alcantara de Menezes Coutinho, estribeiro mór da Casa Real e que Manuel Carlos de Andrade não tivera n"ella mais parte que a de collocar o seu nome no frontispicio, porque assim fôra a vontade do marquez. Um dos que ainda ha pouco inculcou esta opinião por verdadeira foi o sr. João Carlos Feo, em uma carta, ou artigo que sahiu inserto no Jornal do Commercio de 28 de Septembro de 1859".

Por ser bastante completa, recomendamos a leitura na wikipédia da entrada referente a esta obra: https://pt.wikipedia.org/wiki/Luz_da_Liberal_e_Nobre_Arte_da_Cavallaria

Ao que parece a sua tiragem foi de 1000 exemplares mas poucos chegaram intactos aos nossos dias; muitos foram destruídos e retirados as belíssimas gravuras para serem emolduradas.

O nosso exemplar apresenta um miolo em excelente estado de conservação, gravuras incluídas; a encadernação, com rica lombada em chagrin e em bom estado, tem no entanto a pasta anterior com algumas imperfeições e vestígios de uma provável placa com o nome do antigo proprietário. A primeira folha em branco e o anterrosto têm discreto e pequeno carimbo a seco da biblioteca particular a que pertenceu a obra.

RARÍSSIMO EXEMPLAR DE COLECÇÃO.



9157. BERNARDES (MANUEL) - NOVA// FLORESTA,// OU// SYLVA DE VARIOS APOPHTHEGMAS, E DITOS// SENTENCIOSOS ESPIRITUAES, & MORAES;// COM REFLEXOENS,// EM QUE O UTIL DA DOUTRINA SE ACOMPANHA COM O VARIO DA// ERUDIÇÃO ASSIM DIVINA COMO HUMANA://OFFERECIDA, & DEDICADA// A SOBERANA MÃy DA DIVINA GRAÇA// MARIA// Santissima Senhora a Nossa// PELO PADRE MANOEL BERNARDEZ// da Congregaçaõ do Oratorio de Lisboa. // PRIMEIRO TOMO [a QUINTO TOMO]// [grav. reproduzindo o emblema da Cong. do Oratório]//LISBOA// Na Officina de VALENTIM DA COSTA DESLANDES, Impressor de Sua Magestade. Anno M.DCCVI [1706 a 1728]. 5 vols. In-8º gr. de XVI-496, IV-412, IV-538, XII-550 e VIII-556 págs. Enc. 750,00 €

Trata-se da primeira edição de uma das obras mais estimadas da literatura portuguesa barroca setecentista, da autoria do padre Manuel Bernardes (1644-1710).

O 3º tomo indica como impressor "Officina Real DESLANDESIANA; os 4º e 5º tomos "Officina de JOSEPH ANTONIO DA SYLVA". Sabe-se, pois, que os 2 últimos tomos, impressos vários anos depois dos três primeiros, foram de iniciativa de José António da Silva, que também procedeu a uma reimpressão dos anteriores.

Elegantes encadernações antigas, inteiras em pele, com as lombadas decoradas com ferros a ouro, 4 nervuras e dizeres inscritos também a ouro sobre rótulos em pele vermelha.

Conjunto em bastante bom estado de conservação para uma obra três vezes centenária, a nível do miolo e encadernações; o 1º vol. tem pequena, bonita e antiga assinatura de posse no frontispício, 10 págs. a meio do volume sublinhadas e anotadas a tinta lilás e ocasionais e breves sublinhados com a mesma tinta; o 2º vol. tem raros sublinhados quase sempre a tinta preta já muito desvanecida; o 3º vol. tem antiga mancha de humidade já muito desvanecida e que afecta o canto inferior direito das últimas 25 folhas; o 4º vol. tem a mesma bonita e discreta assinatura do 1º tomo e antriga mancha de humidade muito desvanecida que afecta as últimas folhas; o 5º e último volume tem antiga e pequena assinatura de posse no canto superior direito do frontispício, ínfimos vestígios de xilófagos nas folhas centrais que não ofendem a parte impressa e pequenas manchas antigas de humidade nas primeiras e últimas folhas. Por último, todos os tomos estão ligeiramente aparados, como era costume na época, mas mantendo boas margens. O 4º tomo tem mancha na lombada da encadernação (ver foto).

Mesmo com os ínfimos defeitos descritos, trata-se de uma bela e RARA obra, que poucos coleccionadores do livro antigo têm o grato prazer de possuir.



1062. BOTELHO (BERNARDO DE BRITO) - HISTORIA BREVE DE COIMBRA, SUA FUNDAC,AM [SIC], ARMAS, IGREJAS, COLLEGIOS, CONVENTOS, E UNIVERSIDADE; DEDICADA AO SENHOR PEDRO HASSE BELLEM, FIDALGO DA CASA DE SUA MAGESTADE, E COMMENDADOR DA ORDEM DE CHRISTO. ORDENADA PELO LICENCIADO...Lisboa Occidental, na Officina Ferreiriana. MDCCXXXIII. In-8º de IV-26 págs. Enc. 400,00 €

Primeira edição.

Raro.

Excelente encadernação nova em inteira de pele, decorada com elegantes ferros a ouro.



10184. CLEDE (M. DE LA) - HISTOIRE// GENERALE// DE// PORTUGAL Par ...// TOME PREMIER [a TOME VIII].// Contenant l'origine, les moeurs & les// guerres des anciens Lusitaniens; leur// état sous la domination des Romains;// & l'invasion des Gots & celle des Maures. A PARIS, Chez Rollin, Fils. MDCCXXXV [1735]. 8 vols. In-8º peq. de L-554 + XIV-583 + XII-564 + XIV-632 + XIV-623 + XXVI-620 + XXVI-664 + XL-560-IV págs. Enc.

Trata-se de uma das mais antigas histórias de Portugal, ilustrada com alguns interessantes mapas desdobráveis.

O subtítulo refere-se apenas ao 1º volume; todos os volumes têm subtítulos diferentes, consoante o período a que se refiram.

Boas encadernações centenárias inteiras em pele.

Bonito conjunto em bom estado geral de conservação, sobretudo atendendo aos quase 300 anos que a obra já tem. Algumas das lombadas têm pequenas falhas; os 2º, 7º e 8º vols. têm ínfimos sinais de xilófagos que não ofendem a mancha tipográfica; ocasionais pequenas manchas antigas de humidade já muito desvanecidas; ocasionais anotações coevas com bonita caligrafia; 4 vols. têm vestígios de desgaste (rato?) na parte superior.



4550. ILHARCO (ALBERTO) - EQUITAÇÃO PRATICA Por... Tenente Coronel de Cavallaria. Commandante da Escola Pratica da Arma. Livraria Ferin. Lisboa. 1902. In-4º de XVI-342 págs. Enc. 250,00 €

Estimado e raro tratado prático de equitação divido em seis partes; a quinta parte, intitulada "Amazonas", é um curioso capítulo dedicado às praticantes de hipismo. Escreve o autor: "Não pretendo fazer um tratado de equitação para senhoras por desnecessário, pois que, abstraindo da posição differente da do homem, que são forçadas a tomar quando a cavallo, os principios manteem-se os mesmos e inalteraveis". Não obstante este aviso, são dedicadas 16 páginas ao tema para além de algumas fotografias.
Ao todo a obra está ilustrada com 15 interessantes estampas fotográficas impressas em folhas à parte.

O nosso exemplar É ÚNICO devido à seguintes características: tem DEDICATÓRIA do autor "Ao seu ajudante de campo, e capitão Primo de Sá Pinto Abreu Sottomayor" [militar distinto, nasceu em Lanhelas em 1881 e faleceu no Porto em 1961]; inclui carta avulsa "Ao Sr. General reformado Alberto Mimoso da Costa Ilharco", proveniente do Serviço da República e datada de 1925; tem fotografia de grandes dimensões de Alberto Ilharco e assinada por este; tem 6 folhas manuscritas, encadernadas com o volume, intituladas "Notas biograficas de Alberto Mimoso da Costa Ilharco" que incluem 1 página para "Condecoraçoes" e 3 páginas para "Louvores"; finalmente, e ainda encadernados com o volume, diversos recortes de jornais antigos, o último dos quais noticiando o falecimento do General Alberto Ilharco.
Bonita e luxuosa encadernação com lombada e cantos em pele. Conserva as capas da brochura e está apenas ligeiramente aparado e dourado à cabeça.

Exemplar de um modo geral em bom estado de conservação, exibindo normais sinais do tempo. As primeiras folhas, exteriores ao livro propriamente dito, apresentam alguns pequenos vestígios de xilófagos no canto inferior direito.

EXEMPLAR DE COLECÇÃO.



10174. MEDINA (HENRIQUE) - MEDINA - SETENTA ANOS DE PINTURA. Estudo de René Huygue da Academia Francesa. SÓLIVROS DE PORTUGAL. Trofa. 1981. In-fólio de 371-VI págs. Enc. VENDIDO.

Obra monumental, impressa em bom papel couché, que reúne as obras mais representativas de Henrique Medina (1901-1998), referência incontornável da pintura retratista do século XX.
Profusamente ilustrado em extra-textos, incluindo um auto-retrato. Texto bilingue.

O nosso exemplar PERTENCE À RARA SÉRIE ESPECIAL DE SETENTA EXEMPLARES NUMERADOS E ASSINADOS POR MEDINA (EX. Nº 5) E INCLUI AINDA UMA DEDICATÓRIA PERSONALIZADA E 3 FOTOGRAFIAS (QUE NÃO PERTENCEM À OBRA) EM TODAS RECONHECÍVEL O ILUSTRE PINTOR.
Em muito bom estado de conservação. Apresentado dentro de caixa arquivadora em veludo verde, exclusiva desta edição especial.

EXEMPLAR DE COLECÇÃO.



1822. PESSOA (FERNANDO) – MENSAGEM. Edições Caixotim. Porto. In-8º. Enc. 600,00 €

Reprodução fidelíssima da 1ª edição de Mensagem, incluindo as capas da brochura originais, numa tiragem de 200 exemplares, numerados e assinados, dos quais só 40 entraram no mercado livreiro.

Impressão tipográfica em papel manufacturado, 100% algodão, com marca d'água, não aparado. A encadernação, inteira de pele (carneira), tem nervuras e gravação de ferro, a ouro, nas seixas e nas pastas. Guardas em papel marmoreado, de produção artesanal. O estojo de protecção, em madeira e cartão, reproduz uma pintura alegórica da artista Cynthia Guimarães Taveira. Na lombada da caixa, foi incrustada a marca do Editor, gravada em prata (ver imagem). Da referida artista é a pintura original que deu lugar à serigrafia, numerada e assinada, que acompanha cada exemplar, aposta por meio de um travessão em prata, contrastada.

Exemplar ainda embrulhado em papel de seda, fechado com lacre.

Peça de colecção, há muito esgotada, e que poucos bibliófilos terão o prazer de possuir.
MUITO INVULGAR.



4051. VIVIAN (G.) - SPANISH SCENERY. P. & D. Colnaghi & Cº. London. 1838. In-fólio de XXIX flhs. inums. Enc. 5.000,00 €

"Spanish Scenery" de George Vivien (1798-1873), viajante e pintor inglês, é uma das mais raras e apreciadas obras estrangeiras sobre Espanha.

As soberbas 29 litografias de grandes dimensões, referem-se a vários aspectos paisagísticos e monumentais das cidades espanholas de Málaga, Córdova, Granada, Sevilha, Vitória, Valência, Bilbao, Segóvia, Costa da Biscaia, Barcelona, Baiona, Valladolid, Murviedro, Gibraltar e Vigo.

Encadernação recente com lombada e cantos em pele; a lombada é a original, restaurada.

Exemplar em bom estado de conservação, sem quaisquer assinaturas e/ou vestígios de xilófagos mas com bastante acidez generalizada.

MUITO RARO.



Aqui fica esta homenagem simples, mas merecida, com as minhas felicitações ao Luís Moutinho e votos de continuação do seu excelente trabalho em prol do livro. Bem-haja!

Saudações bibliófilas

domingo, 4 de dezembro de 2016

Cólofon - livros antigos – Catálogo especial de Dezembro de 2016 - raridades e curiosidades




22 – Millin de Grandmaison, Aubin-Louis - LA MYTHOLOGIE MISE À LA PORTÉE DE TOUT LE MONDE, Ornée de cent Figures en couleurs, ou en noir. Paris. Chez Déterville. An Septième (1799). 12 volumes

O Francisco Brito da Colofon  livros antigos esmerou-se e decidiu apresentar um ”Catálogo especial”, embora na minha modesta opinião seja, mais um bom catálogo, a como já estamos habituados, estando a sua “especialidade” apenas por ser publicado na “quadra” que atravessamos e por apresentar algumas peças de elevada raridade e pelo conjunto de documentação que engloba (refiro-me ao item 7 obviamente).

Mas vejamos o que o Francisco Brito nos diz sobre este Catálogo:

"O catálogo, apesar de pequeno, é variado apresenta obras sobre temas distintos como a cartografia, religião, literatura, história entre outros. Creio que todos os lotes apresentados são de interesse para as respectivas áreas em que se inserem. Ainda assim merecem destaque os seguintes:

12 – Cervantes de Saavedra, Miguel -  EL INGENIOSO HIDALGO DON QUIXOTE DE LA MANCHA. NUEVA EDICION CORREGIDA POR LA REAL ACADEMIA ESPAÑOLA. CON SUPERIOR PERMISO. En Madrid. Por Don Joaquin Ibarra Impresor de Cámara de S. M. Y de La Real Academia. MDCCLXXX. [1780]. 4 volumes. XIV – CCXXIV -199 págs; 418 págs; [XIV], 306 págs - 346 págs. 27,6cm. E.

28 – Racine, Jean (Porto, Manuel J. da Silva; trad.) - PHEDRA. Rio de Janeiro. Na Impressão Régia. 1816. 74 págs. 20,5cm B.

2 – Amélia (Rainha D. Amélia de Orleães) – MES DESSINS. 2 volumes. Mes Endroits Préférés. Paris. Le Goupy Editeur. 1926. Art et Archeologie. Maggs Bros. 1928. 42,4cm.
5 – BIBLIA SACRA IUXTA VULGATAM... Paris. Simones de Colinae. 1541. 833 (10) págs - XLIII fl. - 18fl. 35cm. E.

7 – Camelo Lampreia - DIPLOMACIA. VALIOSO ESPOLIO – CORRESPONDÊNCIA. DOCUMENTOS DIVERSOS."

Como é do conhecimento geral só se começou a imprimir livremente no Brasil após a Transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, tendo a esquadra portuguesa largado do porto de Lisboa em 29 de Novembro de 1807 (1) fugida à Invasão Francesa.

O general Junot entrou em Lisboa às 9 horas da manhã do dia 30 de Novembro, liderando um exército de cerca 26 mil homens e tendo à sua frente um destacamento da cavalaria portuguesa, que se rendera e se pusera às suas ordens.


Embarque da Família Real Portuguesa

Impressão Régia foi a primeira editora brasileira, fundada pelo decreto de 13 de Maio de 1808 na cidade do Rio de Janeiro. A Impressão Régia brasileira foi uma filial da editora (de mesmo nome) existente em Lisboa, capital de Portugal.

O primeiro impresso saído dos seus prelos foi a Carta Régia de 28 de Janeiro de 1808 que abriu os portos do Brasil.




Carta Régia de 28 de janeiro de 1808, do Príncipe Regente D. João, que abriu os portos do Brasil ao comércio com as nações amigas.

Esta iniciativa foi uma das consequências da chegada da família real portuguesa e sua primeira publicação, não contando com os Alvarás e Cartas Régias, foi a Gazeta do Rio de Janeiro (órgão oficial da corte), além do jornal O Patriota, publicado entre 1813 e 1814.

Como tudo, também este assunto levanta algumas polémicas como já aqui se deu conta em postagens anteriores, pelo que as primeiras obras são de elevada raridade. (2) (3)

Com efeito, é tacitamente aceite como o primeiro livro escrito e impresso no Brasil um relato de 60 páginas – Relação da entrada que fez o excellentissimo, e reverendissimo senhor D. F. Antonio do Desterro Malheyro bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste prezente anno de 1747, por Luiz Antonio Rosado da Cunha. No entanto, esta edição/impressão foi feita ilegalmente.



Relação da entrada que fez o excellentissimo, e reverendissimo senhor D. F. Antonio do Desterro Malheyro bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste prezente anno de 1747, por Luiz Antonio Rosado da Cunha. (4)

Mas vamos deixar estas divagações, ainda que me pareçam oportunas, e passar ao Catálogo em si.

Com o seu cuidado habitual o Francisco refere, e muito bem, o trabalho de xilófagos neste exemplar, coisa que seria quase descurada no Brasil tal a frequência do mesmo pelas condições climáticas.



28 – Racine, Jean (Porto, Manuel J. da Silva; trad.) – PHEDRA. Rio de Janeiro. Na Impressão Régia. 1816. 74 págs. 20,5cm. B. 280€

Na obra “O Bibliófilo Aprendiz”, do erudito Rubens Borba de Moraes, esta obra que aqui apresentámos é referida nos seguintes termos: “Manuel Joaquim da Silva Porto, poeta e livreiro-editor, (…) nos deixou uma tradução de Phèdre, de Racine, que não é pior que outras mais recentes e cujos exemplares são raríssimos.”

Exemplar em brochura. Miolo, em bom estado, ainda que afectado por xilófagos, com incidência mais significativa na parte central do volume. Os xilófagos afectam certas partes do texto na página 27 e volta a limitar-se às margens na página 57. A obra, com 74 páginas numeradas, não está encadernada (estando apenas protegida por uma folha) e não estará aparada.

Mas o item mais importante e interessante deste Catálogo, ainda se prende com as relações Portugal Brasil:




7 – Camelo Lampreia – DIPLOMACIA PORTUGAL-BRASIL. VALIOSO ESPOLIO. – CORRESPONDÊNCIA. DOCUMENTOS DIVERSOS. 10.000€

O espólio aqui apresentado, constituído por cerca de 4000 documentos (na sua maioria correspondência) já foi alvo de alguns estudos dos quais nos socorreremos para caracterizar não só o Conselheiro e ilustre Diplomata Camelo Lampreia, mas também o conteúdo deste conjunto documental e a sua importância para a história de Portugal e do Brasil no final do século XIX e no início do século XX.



De acordo com a Professora Doutora Isabel Correia da Silva no seu trabalho “Arquivo Pessoal do conselheiro Camelo Lampreia”  João de Oliveira de Sá Camelo Lampreia “nasceu na cidade do Funchal, ilha da Madeira, a 16 de Setembro de 1863, filho de D. Sindina d’Oliveira Lampreia e de Francisco Joaquim de Sá Camelo Lampreia (formado em medicina, figura de algum destaque no seio do partido Histórico, amigo do duque de Loulé, foi deputado entre 1864 e 1874).João Camelo Lampreia ingressou na carreira diplomática aos 19 anos, sendo nomeado adido à legação de Portugal na Suécia (...) Serviu, a seguir, na secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros, na embaixada junto da Santa Sé, na legação de Espanha e na legação de Itália. Em 1896 foi enviado como encarregado de negócios para a legação do Rio de Janeiro, com a incumbência de mediar a questão da Ilha da Trindade em disputa entre o Brasil e a Inglaterra. Em 1900 foi elevado a chefe da representação brasileira, como ministro de 1ª classe. Foi-lhe conferido o título de conselheiro em Fevereiro de 1902 e em 1906 foi-lhe concedida a mercê da Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Durante a sua estadia no Brasil, Lampreia foi uma figura de extraordinária influência na colónia (...).


General de Brigada Bernardo Pinheiro Correia de Melo
1º Conde de Arnoso

Mas, a partir de 1906, o que passou a ser um activo de peso no currículo de Lampreia foi a sua amizade com João Franco e com o conde de Arnoso, secretário particular do rei D. Carlos. Desde cedo que Lampreia integrou, com Arnoso, o rol de apoiantes de João Franco, por isso, quando em 1906 se formou um governo franquista, a propaganda favorável ao franquismo junto dos portugueses no Brasil foi algo natural. (...) Em 1908, na sequência da limpeza aos baluartes franquistas que se fez durante o governo de acalmação de D. Manuel II, Lampreia foi enviado para Haia onde, apesar dos vários manejos e esforços para regressar ao Rio, acabou por ficar até 1910. Com a implantação da república em Portugal, Lampreia abandonou a carreira diplomática e fixou-se com toda a família no Rio de Janeiro (...). Depois de uma passagem de breves anos por Lisboa, em inícios da década de 30, durante a qual conseguiu obter a reintegração na carreira diplomática, morreu no dia em que completava 80 anos, a 16 de Setembro 1943 (...)”.



 Este espólio foi também analisado pelo Dr. Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas que na sua obra “O Conselheiro Camelo Lampreia, Diplomata. Um espólio valioso” destaca algumas das principais “informações de valor histórico” presentes neste espólio, como são, por exemplo as que encontramos relativas ao “Conflito entre a Inglaterra e o Brasil sobre a ilha da Trindade (...) negociada por Camelo Lampreia”, “Viagem d’El rei D. Carlos a Inglaterra (1904), “Viagem da Canhoeira pátria ao Brasil (1905) em agradecimento à colónia portuguesa que a oferecera depois do Ultimato” “projecto da viagem de D. Carlos ao Brasil (1908)”, entre outros.





​De acordo com o Dr. Eugénio Andrea da Cunha e Freitas neste espólio é possível encontrar correspondência de várias figuras da política e da cultura portuguesa e brasileira de então, como por exemplo: “D. Amélia e D. Maria Pia, reis D. Carlos e D. Manuel II, príncipe Real D. Luís Filipe, João Franco, Tomás Ribeiro, Eduardo Vilaça, Venceslau Lima, Condes de Arnoso, de Sabugosa, de Paço Vieira, de Tarouca, de Paraty, de Bertiandos, da Ribeira Grande, dos Marqueses de Castelo Melhor, do Faial, de Lavradio, dos Duques de Palmela, Condes de Arnoso (João e Vicente), Viscondes de Pindela, de Santo Tirso, Conselheiros Martins de Carvalho, Matoso dos Santos, Rodrigo Pequito, José Luciano de Castro, Júlio Vilhena, António de Azevedo Castelo Branco, António Cândido, João Arroio, Jacinto Câncido, Hintze Ribeiro, Ferreira do Amaral, Gomes Teixeira, Barros Gomes, Carlos du Bocage, Alberto de Oliveira, Júlio de Castilho, José Dias Ferreira, Emídio Navarro, José Maria de Alpoim, João de Azevedo Coutinho, Comandante António Pinto Basto, António Sérgio, Sousa Monteiro, Aquile Machado, Antero de Figueiredo, Agostinho de Campos, Carlos Malheiro dias, Óscar da Silva, Artur Napoleão, Viana da Mota, Rui Ulrich, Virgínia de Castro Almeida, Manuel da Silva Gaio, António Feijó, Columbano, Jorge Colaço, Luciano Cordeiro, Campos Henriques, D. António Barroso José Malhoa, Veloso Salgado, Teixeira Lopes, José de Azevedo Castelo Branco, Espírito Santo Lima, Ramalho Ortigão, Costa Mota, Sousa Lopes, Aníbal Soares, Tomás Costa, Visconde de Alte, Luís Teixeira de Sampaio. Dos Brasileiros, Afonso Pena, Campos Sales, Oliveira Lima, Rui Barbosa, Rio Branco, Machado de Assis, Max Fleuiss, Ouro Preto, Olavo Bilac, Coelho Neto, Conde de Adonso Celso, Joaquim Nabuco, Ramiz Galvão, Rodrigues Alves e tantos outros”. Para além destes nomes poderemos ainda encontrar correspondência e papel timbrado do “Paço das Necessidades”, do “Paço da Pena”, do “Gabinete do Presidente da República (Brasil)”, do Ministério da Guerra (Brasil)”, do “Real Theatro de S. Carlos”, da Revista “O Mundo Elegante” da “Academia Pernambucana de Letras”, dos joalheiros “Leitão & Irmão”, da Companhia “Pacific Line”, entre outras.

Espólio composto de documentação bastante rara e valiosa. Conjunto extremamente valioso pelo seu interesse para a história de Portugal e do Brasil.


Camilo Castelo Branco

 Camilo Castelo Branco é um escritor assíduo nestes catálogos e, aqui, vamos, encontra algumas das suas obras (embora de raridade variável). Destas destaca-se pela sua raridade:



8 – Castelo Branco, Camilo – O CALECHE. FOLHETIM ESCRIPTO PELO SNR. CAMILO CASTELO BRANCO, PUBLICADO NO NACIONAL DE 19 DE DEZEMBRO. Porto. Typ. de J. Lourenço de Sousa-. 1849. 15- I págs. 19.5cm. E. 1.200€

Rara e pequena brochura, aglutinação anunciada de dois artigos, ambos dos finais de 49: um, publicado em "A Nação", que pedia a demissão de Costa Cabral, Conde de Tomar desde 1845, “por dar uma comenda por um caleche”, e outro, folhetim de Camilo, "O último ano de um valido", continuação (ou sub-título) de "Fragmento de um drama do futuro", de "O Nacional".

A edição, e talvez a iniciativa, terá sido de Gonçalves Basto, amigo de Camilo, que era o proprietário do referido "O Nacional", acérrimo opositor do cabralismo, pelo que o dito jornal fora assaltado (Alexandre Cabral, Dicionário de Camilo Castelo Branco, p. 111-112)

Costa Cabral voltara do exílio no ano anterior e encontrara forte oposição em jornais, que tentou silenciar, e por muito variadas espécies, de entre as quais, para continuarmos na área camiliana, Costa Cabral em relevo, de D. João de Azevedo, “objurgatória fulminante“, disse Camilo, que também o viu “de vasto engenho e absoluta carência de juízo”, talento difuso que se exauriu na política, nas letras e na paixão amorosa.

Exemplar encadernado. Encadernação inteira de pele, não contemporânea. A encadernação foi feita em conjunto com cerca de 40 folhas em branco para dar consistência ao volume. Ligeiramente aparado. Miolo em bom estado de conservação. 

Ex-libris heráldico de Pedro Manuel Franco da Costa de Barros (Alvellos).

Pela sua curiosidade, visto ser uma obra que reflecte a vertente bibliófila e estudioso da literatura de Camilo, que não apenas o conhecido escritor, refiro:



9 – Castelo Branco, Camilo; Ferreira, José Maria d’ Andrade – CURSO DE LITTERATURA PORTUGUEZA. Lisboa. Livraria Editora de Matos Moreira e Comp. 1875-1876. 2 volumes. 380 págs; 354 págs. 20,2cm. E.  70€

Primeira e única edição desta obra de José Maria de Andrade Ferreira que conta com a colaboração de Camilo Castelo Branco no segundo volume (da inteira autoria de Camilo).

Exemplar encadernado. Dois volumes encadernados num tomo. Encadernação sólida com as lombadas e cantos em pele. Conserva as capas de brochura do primeiro volume.

O livro-antigo também está presente.

Para além do exemplar de BIBLIA SACRA IUXTA VULGATAM... citada acima pelo Francisco Brito, refiro este outro exemplar pela beleza do seu frontispício:



19 – Lavorio, Julio – DE IVBILEO ET INDVLGENTIIS TRACTATVS. Roma. ExTypographia Alexandri Zannetti. 1625 VIII -130 –  II - 424 – 132 – IIpágs. 22, 3cm. E.500€
Tratado de indulgências da autoria de Julio Lavorio (Julius Lavorius de Laurino), Protonotário Apostólico.

A folha de rosto da “Pars Prima” é uma bonita gravura, em que se vê um frontão clássico de pedra, encimado por dois anjos que atiram moedas, estando ao centro, ladeados por anjos, os dizeres editoriais. Ao lado estão representando “S. Lautrentius” e “S. Catharina”. No centro do frontão encontram-se armas eclesiásticas atribuíveis à família Barberini, neste caso ao Papa Urbano VIII.

Exemplar encadernado. Encadernação recente em pergaminho. Miolo em bom estado, com a excepção de um rasgão que afecta o texto nas págs. 86/87.  Maiúsculas de abertura dos capítulos decorativas. Papel sonante.
Não pude deixar de constatar, que apesar de ter sido editado tão recentemente, a maioria dos lotes já estarem RESERVADOS, o que bem atesta da escolha acertada feita pelo Francisco Brito.

Fica apenas o reparo de não apresentar os seus catálogos em pdf, pois seriam de mais fácil consulta agora, ou mesmo mais tarde. Aqui deixo a sugestão (embora saiba que é mais complexo e na maioria das vezes não o justifica)..

Graficamente a apresentação dos mesmos tem vindo a melhorar (e como sabemos o Francisco disponibiliza-se a enviar qualquer esclarecimento suplementar ou fotografias sempre que solicitados)

Resta-me apenas felicitar o livreiro-antiquário pelo excelente trabalho e esperar pela vossa leitura do catálogo (…e, já agora, não descurem a leitura dos próximos, pois que quando o fizerem “pode ser tarde para a compra do tal exemplar!”)

Saudações bibliófilas




Consultas sugeridas:

(1) Transferência da corte portuguesa para o Brasil – Wikipédia


(2) Simone Cristina Mendonça de SouzaPrimeiras impressões: romances publicados pela Impressão Régia do Rio de Janeiro (1808-1822)
(Tese apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Doutor em Teoria e História Literária. Orientadora: Profª. Dra. Márcia Azevedo de Abreu)

 (3) Celestino Sachet (UFSC)Obras publicadas pela Impressão Régia, entre 1808-1822, e revista de Portugal editada em Paris, esclarecem aspectos da literatura de Santa Catarina, em fins do século XVIII.

(4) Michele Marques Baptista – O primeiro livro escrito e impresso no Brasil (Blog do Sistema de Bibliotecas da UCS- 2 de Maio de 2011)

domingo, 20 de novembro de 2016

Alguns livros a ver ou a rever… (e já começou a época natalícia)



©Copernicum. Il Portale del Libro

Com o aproximar da quadra natalícia as livrarias começam, um pouco por todo o lado, a sugerir livros para compra ou mesmo para prendas de Natal (será que é desta vez que me vai calhar alguma?)

De alguns dos catálogos ou de Newsletters (agora muito em voga) recebidos vou apresentar algumas obras que me cativaram pela sua qualidade.

Mais uma vez, quero deixar bem explícito que é a minha opinião e o meu gosto pessoal que foram soberanos.

Vejamos então algumas delas.


Librairie Le Feu Follet

A Librairie Le Feu Follet na sua Sélections thématiques du Feu Follet pour préparer Noël apresenta na secção Belles reliures estas magníficas obras de Balzac, Voltaire e Montesquieu:






Honoré de BALZAC – Histoire de la grandeur et de la décadence de César Birotteau. Chez l'éditeur, Paris 1838, 14x22,5cm, 2 volumes reliés. 1 200 €






Edition originale.











Reliures en demi maroquin de Russie rouge, dos lisses ornés de fers romantiques dorés ainsi que d'arabesques noires, monogrammes dorés en queues des dos, filets dorés sur les plats de papier marbré, gardes et contreplats de papier à la cuve, couvertures conservées et comportant des manques angulaires comblés et des restaurations, élégantes reliures romantiques pastiches signées de Randeynes, relieur qui exerca durant le Second Empire.







Une pâle mouillure affectant, en pied, les derniers feuillets du premier volume.



Bel exemplaire, particulièrement grand de marges et bien complet de son prospectus "association de la librairie et de la presse quotidienne" placé en fin du premier volume, agréablement établi dans une reliure pastiche romantiques.







VOLTAIRE – Histoire de l'Empire de Russie sous Pierre Le Grand. S.n., S.l.[ Geneve] 1759 - 1763, In-8 (12x20cm), XXXIX 302pp. et (2) XVI, 318pp., relié. 800 €







Edition originale, rare, avec le premier volume parue en 1759 et le second à la date de 1763 (voir Cioranescu 64221). Elle est illustrée d'un frontispice, d'une vignette de titre répétée à la page de titre du second volume, et de 2 cartes dépliantes et rehaussées de couleurs.





Reliures du XXe en pleine basane blonde marbrée. Très beau pastiche d'une reliure d'époque. Pièces de titre de veau rouge, pièces de tomaison de veau blond. Triple filet d'encadrement sur les plats. Très bel exemplaire, relativement frais.







Dans sa préface de 1829 de l'édition Garnier de 1878, Beuchot raconte plusieurs faits intéressants : après avoir publié l'Histoire de Charles XII, Voltaire pensait devenir l'historiographe de Pierre 1er, le rival du roi de Suède. C'est à la suite de la publication des Anecdotes sur Pierre Le Grand en 1748 que le comte Schouvaloff engage Voltaire à écrire une histoire de Pierre le Grand. Bien que date de publication soit 1759, l'ouvrage fut mis en vente l'année suivante, Voltaire attendant l'autorisation de la cour de Petersbourg. Le livre commence par une description de la Russie et se poursuit par l'histoire de Pierre 1er. On trouve différentes études intéressantes dans le second tome qui ne parut qu'en 1763: De la religion, des lois, du commerce avec la Chine, des voyages de Pierre le Grand en Perse...

Na secção Livres d’exception vamos encontrar estas três obras, entre outras, de não menor relevo:



Charles de Secondat MONTESQUIEU – De l'esprit des loix. Chez Barrillot et fils, A Geneve 1749, In-4 (19,5x25,7cm), xxiv, 326pp. et (2) xiv, 398pp., 2 volumes reliés. 1 600 €





Nouvelle édition, rare, après l'originale d'une rareté insigne parue en 1748. Il s'agit d'une des deux éditions parues en 1749 chez Barrillot, celle-ci en deux volumes et contenant pour la première fois une grande carte dépliante. C'est cette édition qui est référencée par Brunet.





Reliures en plein veau marbré et glacé d'époque. Dos à nerfs ornés. Pièces de titre et de tomaison en maroquin beige. Manque en tête du tome I. Coiffe de tête du tome II élimée, avec manque aux mors. 5 trous de vers sur le dos du tome II. Epidermure le long du mors du tome I avec léger manque à la tomaison. Une autre épidermure au premier caisson du tome I. 3 coins émoussés et dénudés. Une trace légère de mouillure au coin droit en marge, dernier tiers du livre du tome II. Frottements. Malgré les défauts mentionnés, agréable exemplaire, assez élégant. On ne trouve que rarement des exemplaires en deux volumes, ils sont la plupart du temps reliés en un.







Livre emblématique et phare du XVIIIe siècle, L’esprit des lois, c’est à dire les principes et les tendances par lesquels se font les lois, aura une influence déterminante sur la vie politique, et sera un guide pour la rédaction de la constitution de 1791 et de celle des États-Unis. La thèse générale de Montesquieu (1689- 1755), c’est que les lois ne sont pas seulement une création des hommes - L’esprit des lois c’est »les divers rapports des lois avec diverses choses» - mais que les causes qui les forment sont multiples ; il y a donc des causes physiques (le climat), des causes morales (religion, moeurs...) ; de plus une justice primitive est à l’origine des lois ; il y a donc bien un esprit des lois. Mais le livre n’est pas seulement un traité de l’esprit qui anime les lois, c’est avant tout un traité des gouvernements et surtout, de la liberté. Bien que le livre fût beaucoup lu, il fut accueillit avec une certaine froideur (par les philosophes, qui ne reconnaissaient pas en Montesquieu un des leurs et lui reprochaient son conservatisme) et beaucoup de critiques (de la part des ecclésiastiques).

Ex libris gravé du XIXe Octave Chavaillon : Conscience est la ruine.



Tristan CORBIERE – Les amours jaunes. Glady frères, Paris 1873, 12,5x19,5cm, relié sous étui. 4 500 €








Edition originale imprimée à 490 exemplaires, Le nôtre un des 481 Hollande et non justifié.











Reliure en plein maroquin citron, dos à cinq nerfs sertis de filets dorés orné de triples caissons dorés et marron, date dorée en queue, roulettes dorées sur les coiffes, encadrement d'un jeu de quadruples filets dorés et d'un marron sur les plats, gardes et contreplats de papier à la cuve, encadrement d'un jeu de sextuples filets dorés sur les contreplats, doubles filets dorés sur les coupes, très fragiles couvertures et dos conservés qui ont été habilement doublés, toutes tranches dorées, élégante et superbe reliure signée de Canape ; étui bordé de maroquin citron, intérieur de feutrine marron, ex-libris encollé sur un contreplat.



Ouvrage illustré d'une eau-forte de l'auteur en frontispice.







Rare et bel exemplaire parfaitement établi avec ses très fragiles couvertures conservées, ce qui est rare (cf Clouzot).




Paul VERLAINE – Bonheur. Léon Vanier, Paris 1891, 12x19cm, relié. 13 000 €





Édition originale, un des 55 exemplaires numérotés sur Hollande justifiés et paraphés par l’éditeur, seuls grands papiers.







Reliure en demi maroquin gris à coins, dos à cinq nerfs, lieu et date en queue, contreplats et gardes de papier marbré, couvertures et dos conservés, tête dorée sur témoins, reliure signée de J. Weckesser.






Notre exemplaire est enrichi du manuscrit autographe, sur deux feuillets à l’écriture serrée, du troisième poème du recueil : «Après la chose faite, après le coup porté...» daté d’avril 1887 comportant de nombreuses variantes et quelques corrections.







 Exceptionnel exemplaire en grand papier enrichi d’un important poème autographe de Paul Verlaine.


Librairie Livres Anciens

De Le Cabinet-Chaptal da sua newsletterLivres Anciens & Manuscrits - Sélection de novembre 2016 destaco:



2. GILLES, Nicole – Les très élégantes, très véridiques et copieuses Annales des très preux, très nobles, très chrestiens et très excellens modérateurs des belliqueuses Gaules. Paris, Galiot Du Pré, 1525; 2 tomes reliés en un volume in-folio de I. (1)f. de titre, (1)f. de proesme, (4)ff. de table, (1)f. d'errata, CLVIII ff. - II. (4), CXLIIII ff. 3800 €

Vélin rigide surjeté, dos lisse avec pièce de titre (reliure XIXème). Premier et dernier feuillets salis, les deux premiers feuillets sont remontés, mouillures.

Bois in texte comprenant 2 représentations différentes de l'auteur à son pupitre, les six jours de la création, 6 tableaux généalogiques. 7 des bois sont à pleine page et entièrement peints. Impression gothique. Rares annotations manuscrites dans les marges. Le feuillet d'errata concerne les deux tomes et manque souvent aux exemplaires.

Première édition de cet ouvrage posthume, composé à partir des "Chroniques de Saint-Denis". Nicole Gilles (1425-1503) fut secrétaire de Louis XII et contrôleur du Trésor. Cette compilation historique, qui peut être considérée comme la première des Histoires de France, fut complétée jusqu'en 1520 par des historiens contemporains. Le règne de Charles VII y est particulièrement bien analysé. L'ouvrage connut un véritable succès et fut sans cesse augmenté et réédité jusqu'en 1622.
Bechtel, G-125, p.321; Brunet, II-1596.



5. «Je ne connais point de remède à ce livre, qui me paraît bien maldade» - Ou des déboires de bibliophiles du XVIIIe avec leurs "Moreri". Joly de Fleury, Jean-François. Lettre autographe, 3 pp. in-12, 45 lignes. 270 euros

 Belle lettre sur des questions « bibliophiles » et bibliographiques, adressée par l’Intendant de Dijon Jean-François Joly de Fleury (futur contrôleur des finances de Louis XVI) à Charles-Catherine Loppin de Gémeaux (cousin du Président de Brosses, érudit amateur de Voltaire & membre de l’Académie de Dijon).

Joly transmet à Gemeaux la clef d’une pièce de Quinault: L’Amalafonte. Avant de se lancer dans une vaste analyse des défauts de l’édition du dictionnaire de Moreri de 1740 que possède Gémeaux & des moyens de la compléter.

 «Votre édition du Moréri d’Amsterdam, 1740, que j’ai eu occasion de voir il y a longtemps et que j’ai parcourue de nouveau, ces jours derniers chez un homme de ma connaissance, n’a aucun rapport avec les éditions de ce dictionnaire, faites en 1725 et 1732 à Paris pour les quelles ont été composés les deux suppléments en 1735 et 1749 en 4 volumes» …

Il explique à Gémeaux comment compléter son exemplaire, tout en lui déconseillant de le faire : «je ne connais point de remède à ce livre, qui me paraît bien malade, à moins que vous ne fassiez pour lui ce que j’ai fait pour le mien, qui l’était infiniment moins »… « Mais l’émétique a été violent, car outre les frais de port de 20 volumes in-folio reliés en veau de Paris à Dijon et de Dijon à Paris, mon exemplaire de la nouvelle édition me coûte presque aussi cher que si je n’avais pas fourni l’ancien… ».


A Biblioteca do Palácio de Hughenden, Buckinghamshire, Reino Unido.

Mas cá “pelo burgo” (ou seja em Portugal) também surgiram algumas propostas.

Assim a Cólofon – Livros Antigos, de Francisco Brito, apresentou as Últimas novidades: comédias, folhetos de cordel, entremezes, monografias, etc (séculosXVIII) de que destaco:



1050 - [ESPAÑA E PORTUGAL] – COMEDIAS FAMOSAS. s.d. 1700 ? – 1760 ?. 420 fl. 20,5cm. E. 500 €

Conjunto de 18 “Comédias Famosas”, com cerca de 20 a 50 páginas cada uma,  da autoria de diversos autores encadernadas num só volume. O volume apresenta 402 folhas numeradas. Muito embora nenhuma das “Comédias” apresente uma data ou local de edição, através de alguns dados que conseguimos recolher é legítimo supor que datam do século XVIII e que não excederão em muitos anos a segunda metade desse século.

Passaremos de seguida à indicação dos títulos e autores das referidas comédias:

​- Abreu, Brás Luís de – AGUILAS HIJAS DEL SOL.
- [Figueroa y Cordoba, Don Diego e Don Joseph] COMEDIA FAMOSA DE LECONCIO Y MONTANO
- Moreto, Don Agustin – LA GRAN COMEDIA COMO SE VENGAM LOS NOBLES.
- Solis, Don Antonio de – COMEDIA FAMOSA LAS AMAZONAS.
-Moreto, Don Agustin – COMEDIA FAMOSA EN EL MAYOR IMPOSSIBLE, NADIE PIERDA LA ESPERANZA.
- Moreto, Don Agustin, COMEDIA FAMOSA EL PARECIDO.
- Moreto, Don Agustin – COMEDIA FAMOSA LA FINGIDA.
- Bolea y Alvarado, Don Juan de – COMEDIA FAMOSA, CIENCIAS IMPIDEN TRAICIONES.
- [Guevara, Luis Velez de; Zorilla, Agustin de Rojas] COMEDIA FAMOSA, TAMBIEN TIENE EL SOL MENGUANTE.
-[Alarcon, Don Juan de] COMEDIA FAMOSA, EL TEXEDOR DE SEGOVIA.
-Roxas, Don Francisco de – COMEDIA FAMOSA, LOS ENGANOS DE MEDEA.
-Guevara, Luis Velez de – LA GRAN COMEDIA. EL EMBUSTE ACREDITADO, Y EL DISPARATE CREIDO.
- Moreto, Don Agustin – COMEDIA FAMOSA. LA OCASION HAZE AL LADRON.
- Moreto, Don Agustin – COMEDIA FAMOSA YO POR VOS Y VOS POR OUTRO.
-Cubillo y Aragon, Alvaro – COMEDIA FAMOSA, LA PERFECTA CASADA, PRUDENTE, SABIA Y HONRADA.
-Roxas, Don Francisco de – COMEDIA FAMOSA, OBLIGADOS Y OFENDIDOS.
-Moreto, Don Agustin – LA FUERZA DE LA LEY.
-Calderon de La Barca, Don Pedro – LA SIBILA DEL ORIENTE
Exemplar encadernado. Encadernação antiga em pergaminho. Cantos dobrados nas últimas folhas (em particular nas últimas folhas). Perda ligeira mas afectar o texto na folha 191 e pé da folha 318 e corte transversal sem impedir a leitura do texto na folha 347. Miolo manuseado, mas em geral bom estado.



1055 – Câmara Coutinho, D. Gastão Fausto da Câmara – O ESTALAJADEIRO DE MILÃO. s.d. (182?). 46 págs. 21,5cm. B. 50 €

​“Drama Joco-Serio em três actos”. A obra, aqui apresentada sem data nem local de impressão, conheceu uma edição em 1824 da Impressão de Alcobia, com 42 páginas, que é referida no Diccionario Bibliographico Portuguez de Inocêncio Francisco da Silva (vol. III, pag. 137), sendo que na mesma obra Inocêncio afirma “Creio haver além desta outra edição, que não vi”, que supomos esta que apresentámos. O seu autor, D. Gastão da Câmara Coutinho, foi o primeiro bibliotecário da Biblioteca da Marinha, sócio do Conservatório Real de Lisboa, etc. Publicou várias obras na Imprensa Régia do Rio de Janeiro.

Exemplar manuseado, mas completo.



1061 – COLLECÇÃO DE FARÇAS E ENTREMEZES. Porto. Em casa de A. R. Cruz Coutinho 1878-1880. 17 vol. (nº 5 a nº 21). 16 págs (cada fascículo). 23, 5mc. B. - COLLECÇÃO DE LOAS PARA SE REPRESENTAREM ANTES DOS ENTREMEZES, COMEDIAS E AUTOS. Porto. Em casa de A. R. Cruz Coutinho. 1878. 2 (nº 3 e nº4) Vol. 16 págs – 16 págs. 23cm. B. 85 €

Dezassete fascículos da “Collecção de Farças e Entremezes” em que se encontram vários títulos como “O Médico e o Boticário”, “As industrias de Galopim”, “Os Amantes Arrufados”, “O Sapateiro Surdo”, “A Fidalga Imaginaria”, “O Juiz Novo das Borracheiras”, “O Velho Louco de Amor e a Creada Astuciosa”, entre outros. A estes dezassete fascículos juntam-se os nº 3 e nº 4 de uma colecção com outro título que, contudo, se relaciona com os volumes anteriores.

Cada exemplar tem 16 páginas, com dois ou três títulos por fascículo.

Exemplares em bom estado de conservação. Alguns cadernos por abrir.

A Livraria Candelabro do Luís Moutinho, também apresentou uma nova "montra" do seu site actualizada com 150 obra (como o faz quinzenalmente). Destas sobressaem, entre outras, algumas 1ª edições de José Gomes Ferreira e António Corrêa d’Oliveira de que refiro:



7052 – FERREIRA (JOSÉ GOMES) - GAVETA DE NUVENS. (Tarefas e tentames literários). Diabril. Lisboa. 1975. In-8º de 238-II págs. Br. 20,00 €

1ª edição, publicada nas "Obras de José Gomes Ferreira", com capa de Dorindo de Carvalho.

Exemplar em bom estado de conservação, com ínfimos sinais de manuseamento.



8229 – OLIVEIRA (ANTONIO CORRÊA D') - ALLIVIO DE TRISTES. Livraria Aillaud. Paris-Lisboa. 1901. In-8º peq. de 74-II págs. Enc. 75,00 €

1ª edição de uma das primeiras e mais raras obras poéticas de Corrêa d'Oliveira.

Luxuosa encadernação inteira em pele, estando a lombada decorada com 4 nervuras, ferros e ouro e dizeres inscritos sobre dois rótulos também em pele. Conserva as capas da brochura e está apenas ligeiramente aparado e carminado à cabeça.



4459 – OLIVEIRA (ANTONIO CORRÊA D') - AUTO DO FIM DO DIA. Livraria Aillaud. Paris - Lisboa. 1900. In-12º de 71-I págs. Enc.  50,00 €

Trata-se da primeira edição de uma das primeiras obras de António Corrêa d'Oliveira (1878-1960) e, na nossa opinião, uma das mais raras.

Encadernação antiga com lombada em pele, conservando as capas da brochura.

Exemplar em bom estado de conservação; tem antigas assinaturas de posse em várias páginas e dedicatória de oferta, tudo em bela caligrafia.

RARO.


Vinheta

Muito mais haveria para dizer, mas o texto já vai longo, e, por isso fico-me por aqui. Tive o cuidado de seleccionar obras pouco divulgadas aqui em detrimento de outras mais raras ou mais conhecidas, pois essas já aqui foram descritas e apresentadas.

Mas a época promete (e ainda só vamos no seu inicio) pelo vamos esperar para ver!


Saudações bibliófilas.